In The Flesh é uma série sobre a relação das pessoas com o diferente

Avaliação:

Quando pensamos em zumbis a primeira imagem que temos é de fúria animalesca, pânico e muito sangue. O que In The Flesh faz é subverter esse conceito apresentando os mortos-vivos anos depois da ascensão, quando as características agressivas foram controladas por medicação e tratamento psicológico, e assim eles começam a ser reintegrados à sociedade.

In The Flesh é uma série de caráter experimental, que aposta numa temática inédita, num elenco inexperiente e decisões ousadas de roteiro. Com apenas três episódios para contar uma história complexa e impactar o espectador, o criador da série, Dominic Mitchell, usa como trama principal a reintegração do jovem Kiere Walker à sociedade retrógrada e preconceituosa e seus esforços para refazer laços com sua família, destruídos depois de sua trágica morte. A primeira temporada explora o que acontece com famílias que passam por esses traumas e como os “ex-zumbis” tem que reencontrar e reconstruir sua identidade.



O primeiro episódio sofre um pouco com o ritmo pois, com muitas informações e personagens e pouco tempo para introduzir tantas histórias, recebemos uma enxurrada de tramas que aparecem sempre sob a névoa da ambiguidade. Essa dualidade é uma estratégia de construção de uma narrativa que se completa no terceiro episódio. Mitchell escolhe focar em uma subtrama deixando várias outras pelo meio do caminho, uma decisão ousada para quem não sabia se teria encomendada uma segunda temporada. Mas ficou claro que a ideia era contar, pelo menos, uma parte da história completa.

No primeiro episódio somos apresentados ao "Centro de Reabilitação dos Portadores da 'Síndrome do Falecimento Parcial (SFP)'" quando Keire volta de um flashback após tomar uma dose da droga Nortriptilina. Conhecemos também a pequena e retrógrada cidade de Roarton, onde mortos-vivos são chamados de “monstros” e vistos como demônios do Apocalipse que devem ser eliminados e não perdoados.

É interessante ver o papel forte da Religião preenchendo um vazio que a ciência não consegue ocupar. Afinal, como e porque aqueles mortos saíram de suas tumbas e começaram a atacar inocentes? Na falta de uma explicação científica a pregação religiosa toma conta, de um lado e do outro, como no caso do grupo extremista pró-zumbis, o “Exército da Liberdade dos Mortos-Vivos”. Interessantes observar que ambos, o Pastor e o Profeta, utilizam passagens da Bíblia para pregar pontos de vista completamente opostos.

Um dos personagens de maior destaque nesta temporada é Bill Macey, líder da Força Humanitária – junta da comunidade que combateu ataque dos zumbis -, um homem preconceituoso, frio e com tendências psicóticas. Com uma atuação inspirada, Steve Evets traz a vida um Bill que passa da confiança e crueldade à desorientação e insegurança. Vale destacar também a atuação do novato Luke Newberry no difícil papel de Kiere Walkers, um jovem depressivo, silencioso, afetuoso e, acima de tudo, cheio de conflitos.

Ok, você é um otimista com tendencias depressivas.

No segundo episódio aparecem dois personagens chave da série. Primeiro a espevitada Amy Dyer (Emily Bevan), portadora da SFP reintegrada à sociedade, que tem dificuldade de aceitar a vida de reclusão que o preconceito faz os recém-integrados levar. É com Amy que temos umas das cenas mais bonitas da temporada quando ela consegue que Kiere confesse como foi que ele morreu. O outro personagem é Rick Macey, filho de Bill, com quem Keire tem uma relação bastante intensa. Nunca sabemos até que ponto o relacionamento entre os dois chegou, mas temos pleno conhecimento do quando ele mexeu com a vida de deles.  A tensão é estabelecida e no terceiro episódio temos uma explosão de sentimentos, com um final imprevisível, envolvente, emocionante que encerra com maestria o plotline Keire-Rick-Bill, e ainda fecha a completa reintegração de Kiere à sua família.

As pontas que ficam abertas são exploradas na segunda e, infelizmente, última temporada que tem como principal foco O "Exercito da Liberação" e "Força Humanitária" e como elas são dois lados da mesma moeda. E temos Keire como nosso guia perdido entre esses dois extremos e tentando reencontrar seu espaço no mundo. No geral, In The Flesh se destaca não só pela ousadia da temática, mas como ela é trabalhada, explorada e executada.
Curiosidade: Na cena em que Bill leva Rick ao seu antigo quarto aparece um pôster de Eric Cantona, ex-jogador de futebol e ator, com quem Steve Evets contracenou no ótimo filme “A procura de Eric”.
Ficou interessado? Veja o trailer da primeira temporada e corra para fazer uma maratona dessa série maravilhosa:

 "Para os mortos-vivos a vida começa de novo"

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